O que faria se tivesse apenas
três dias de visão?
“Várias vezes pensei que seria
uma bênção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias
no princípio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o
silêncio lhe ensinaria as alegrias do som. De vez em quando, testo os meus
amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo perguntei a
uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. “Nada
de especial”, foi a resposta. Como é possível, pensei, caminhar durante uma
hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas
pelo tacto encontro centenas de objectos que me interessam. Se consigo ter
tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela
visão! E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos, por
apenas três dias.
No primeiro dia, gostaria de ver
as pessoas cuja bondade e companhias fizeram a minha vida valer a pena. Eu
reuniria todos os meus amigos queridos e olharia os seus rostos por muito tempo,
imprimindo na minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro
deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebé, para poder ter a visão da
beleza ansiosa e inocente que precede a consciência individual dos conflitos
que a vida apresenta. E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes dos meus
cães. À tarde, daria um longo passeio pela floresta, intoxicando os meus olhos
com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio
que nessa noite não conseguiria dormir.
No dia seguinte, eu me levantaria
ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em
dia. Contemplaria assombrada o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta
a Terra adormecida.
Como gostaria de ver o desfile do
progresso do homem, visitaria os museus. Assim, nesse meu segundo dia, tentaria
sondar a alma do homem por meio da sua arte. A noite do meu segundo dia seria
passada no teatro ou no cinema. Não posso desfrutar da beleza do movimento
rítmico senão numa esfera restrita ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar
vagamente a graça de uma bailarina. Imagino que o movimento cadenciado seja um
dos espectáculos mais agradáveis do mundo.
Na manhã seguinte, mais uma vez
receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundo do trabalho, nos
ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade é o meu destino. Acho
que na noite desse último dia vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça
cómica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.
À meia-noite, uma escuridão
permanente outra vez se cerraria sobre mim.
Talvez este resumo não se adapte
ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Mas
sei que, se encarasse esse destino, usaria os seus olhos como nunca usara antes.
Tudo quanto visse lhe pareceria novo. Seus olhos tocariam e abraçariam cada
objecto que surgisse no seu campo visual. Então, finalmente, você veria de
verdade e um novo mundo de beleza se abriria para você.”
Publicado no Reader’s Digest (Selecções)
Beijos sonoros!